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domingo, 4 de janeiro de 2015

Infância e Atualidade: A Concepção de Infância na Prática Educativa

Este trabalho discute a questão da concepção da infância na atualidade, a partir da perspectiva social e educacional, de modo a focalizar qual o conceito que ambas trazem sobre a infância. A orientação teórico-metodológica foi baseada em autores que discutem a concepção de infância historicamente e na atualidade, como Áries, Andrade, Paula, e também os referenciais curriculares nacionais de educação infantil que em suas diretrizes defende uma determinada maneira de compreender a infância. O trabalho analisa através da observação a prática pedagógica realizada em uma escola municipal. Conclui que, no âmbito educacional, apesar de estudos mais recentes sobre a infância como construção social e as crianças como produtoras também de conhecimento, a criança ainda é percebida com um "vir a ser", sendo a educação um ato de formação da criança para o futuro. Palavras-chave: Infância ? Sociedade - Educação Introdução A questão problemática da pesquisa é acerca do conceito de infância na educação atual de modo, a saber, se esta tem sido influenciada pela sociedade em seu modo de "ver" a infância. O interesse pelo tema surgiu por meio de leituras de autores que tratam dessa problematização onde se discute a concepção de infância na sociedade atual, e que por sua vez, me levou a refletir sobre a questão desta concepção no âmbito educacional, ou seja, tendo em vista que a escola faz parte do contexto social e desta adquire influências como a mesma pensa a criança; como um "vir a ser", sendo seu papel formá-la para o futuro, ou pensa nestas como um ser que está sendo no presente, ou seja, como produto ou produtora de culturas? Sobre estas questões acredito que a pesquisa irá nos auxiliar a pensar sobre qual nosso modo de conceber a infância e como olhamos para a criança, pois acredito que com base nesse modo de pensar e olhar é que ensinamos. Portanto, meu intuito é levar a reflexão a partir dos aspectos teóricos e práticos apresentados. A pesquisa se direciona a relacionar minha observação prática, realizada em uma escola municipal, com a pesquisa teórica que me direcionou ao tema. Desta forma, meu trabalho está estruturado em primeiramente trazer definições do que foi e é a infância no âmbito social, histórico, e saber como a sociedade atual a concebe, e como a escola, a educação pensa a infância, e, ainda, se suas práticas favorecem o desenvolvimento da criança e valoriza a infância. Pensar em concepção de infância na atualidade nos remete a refletir sobre os diversos âmbitos que esta questão traz, mas me delimitarei a pensar nesta sobre o contexto social atual e no contexto educacional, tendo como base a concepção de infância que o Referencial Curricular Nacional para educação infantil traz em suas propostas. Observamos que segundo Neto e Silva (2007) a palavra infância vem de En-fant que significa "aquele que não fala", isso podemos ver refletido sobre o processo de construção da infância na sociedade, onde observamos figura da criança como aquele que não tem capacidade de ser, estar e atuar por ser criança, ou seja, vista apenas como um ser moldado pelo adulto ou como um indivíduo sem valor, sem um espaço na sociedade, e isso decorre desde a sociedade medieval até tempos atrás, onde começa a mudar tais concepções e passa-se a ver a criança como um indivíduo pertencente ao meio social com sua cultura e seu modo de entender o mundo, pois segundo Paula (2005) antes "a criança inexistia ou ficava adstrita a escassos momentos". (p.1). Ou seja, não participava do meio, era isolada como um indivíduo que nada sabe. Áries (1979) ressalta que "na sociedade medieval a criança a partir do momento em que passava a agir sem solicitude de sua mãe, ingressava na sociedade dos adultos e não se distinguia mais destes". (p.156). Ou seja, a criança passava a ser um "adulto em miniatura", e a viver como tal. Mas a concepção de infância vai sendo mudada conforme a sociedade passa a vê-la com um olhar mais centrado de que esta é um indivíduo que pertence à sociedade, que está inserido em sua cultura e dela aprende, tem "voz", ou seja, tem sua forma de vivê-la, e por esta é influenciada e a esta também influencia. Isto porque se acredita que a concepção de infância está ligada à cultura que vivemos e a sociedade que nós adultos criamos para as crianças, e como um ser moldado pela cultura e pela sociedade estas vivem as influências de sua época. Áries (1979) diz que "a 'aparição' da infância se dá a partir do século XVI e XVII na Europa, quando o mercantilismo, altera o sentimento e as relações frente à infância, modificado conforme a própria estrutura social". (p.14). Isto porque com novas viabilizações da economia e frente a novos desafios econômicos se pensava em como inserir a criança nesta mudança social. Desta forma, observo que conforme há transformações na estrutura social começa a se mudar também o conceito de infância, e isso frente à organização familiar; porque não se compreendia de certa forma e não se pensava a infância como na atualidade, ou seja, não se pensava, e não se sabia o que representava ser criança; isso porque a criança não se diferenciava do adulto e não era representada significamente na família, era vista como somente ligada ao grupo como qualquer outro personagem do contexto. (Áries, 1979, p.14). A percepção que se tinha era de um "ser em miniatura" que tinha que aprender a viver juntamente com os demais. Mas esses são alguns dos sentimentos de infância que Áries (1976) traz, ele mostra que com o passar do tempo e em cada época se criava um sentimento, um modo de perceber a infância, e foi o que ocorreu ao fim da Idade Média, onde surgiu a percepção da criança como um ser inocente, divertido, é o sentimento de "paparicação", onde a criança era vista como fonte de distração dos adultos. E após contrário a este sentimento surge o sentimento de irritação que segundo Áries, não se suportava o sentimento de paixão pelas crianças, na qual as pessoas beijavam estas. (p.158) Portanto, observo a cada época à busca para entender quem era a criança, em que lugar colocá-la em sociedade, ou seja, uma busca pela significação da infância, porque não se tinha claro para a sociedade o que era esta fase. Segundo Áries (1976) "o sentimento da infância corresponde à consciência da particularidade infantil, essa particularidade que distingue essencialmente a criança do adulto, mesmo jovem". (p.156). E isso não era visível a essas épocas ainda. Contudo, voltando às épocas mais atuais observamos que o reconhecimento por essa começa a aparecer, e esse reconhecimento vem segundo Paula (2005): Com o estabelecimento de uma nova ordem política, social e econômica, impulsionada por diversos fatores, dentre os quais o capitalismo industrial, o neoliberalismo e suas conseqüências (migrações, surgimento da família nuclear e burguesa, adstrição da criança à família e idéia de escola), ocorreram transformações que influenciaram a organização da estrutura familiar e, consequentemente a vida das crianças. (p.1) Com novas viabilizações da estrutura social, econômica e familiar, começa a voltar se a pensar na criança como um sujeito despreparado para tal sociedade, e desta forma surge à necessidade de prepará-la para viver neste novo estabelecimento; surge então a questão de escolarizar as crianças prepará-la para o futuro, e esse é um olhar que persiste até dias atuais, pois surgiu com a questão da industrialização, porque não tinha sido necessário até esta época escolarizar as crianças, as escolas existiam para os maiores. Isto mostra uma nova percepção da infância, e me faz pensar como houve a variação das concepções no decorrer dos anos, e isto é perceptível a meu ver, ao observar as concepções que relacionei anteriormente. Segundo os Referenciais curriculares (1998) "a concepção de criança é uma noção historicamente construída e consequentemente vem mudando ao longo dos tempos, não se apresentando de forma homogênea nem mesmo no interior de uma mesma sociedade e época". (p.21). Sobre estas variações me debruço a observar à concepção de infância nos dias atuais onde é possível ver o reconhecimento da criança, da infância como "um vir a ser" no futuro, é um olhar que por mais que se direciona a pensar nas crianças como sujeitos ativos e produtores de culturas ainda se almejam o preparo destas para o futuro desconsiderando-se o presente. Daí surge as problematizações sobre questões da concepção da infância na atualidade: a criança já é no presente, ou será somente no futuro? Deve ser considerada no presente ou deve ser vista somente como um ser que será só no futuro desconsiderando o que ela é, sua vida, seu olhar e sua formação no presente? Andrade (2007) que discute a concepção do "ser criança" na sociedade atual trazendo, dados de uma pesquisa feita por ela em seus trabalhos que trouxe indicações da criança estar sendo tida como um "ainda não", algo que se tornará sujeito um dia (quando adulto), pois esta tem sido vista como uma extensão dos pais, ou seja, não tem direitos próprios. (p.2) A autora complementa dizendo que as crianças têm sido consideradas como "menores" ou "ainda não cidadãos"; ressalta que, "a infância como realidade social, tem frequentemente permanecida afastada e excluída das reflexões sobre problemas sociais e qualidade de vida", pois "a moratória infantil (o ainda não) faz com que a criança esteja sempre em lugar de objeto em um processo macrossocial encaminhado a uma futura sociedade ideal". (p.3) Ou seja, deixar de ser criança no presente porque tem que ser algo no futuro, e sobre isto vemos duas realidades infantis uma em que a criança fica atribuída a ter muitas formações escolares (cursos) para prepará-la para o futuro na sociedade; ou muitas atribuições (afazeres) para adquirir o perfil social que é "ser ativo" atribuído de muitas tarefas o que acaba tirando o prazer da infância, pois estas crianças passam a não ter tempo para o brincar. Outra realidade é a que a criança acaba tendo que trabalhar por sua família não ter condições financeiras de se manter. No Brasil estes casos são visíveis, mas nunca colocado como pauta pela sociedade só por instituições que lutam pela questão do trabalho infantil e sobre outros aspectos da infância, mas este é outro âmbito de estudo na qual não vou me ater, pois não será o foco nesta pesquisa, apesar de ser algo relevante na questão da concepção de infância na sociedade atual. Neste estudo, venho questionar como a escola pensa a infância, e como ela lida com as questões de trabalhar com a valorização, com a questão de a criança ser preparada para viver na sociedade, mas de uma forma que não tire o prazer e seu momento presente de ser criança. Será que a educação tem sido pensada no sentido de respeitar e valorizar a criança no presente? Com esta perspectiva de entender como a escola a tem concebido, analisei a questão da infância que os Referenciais curriculares nos trazem. E a partir desta análise observei que o objetivo é a formação das crianças para o amanhã e isto porque a idéia de escolarização como vemos anteriormente surgiu nesta perspectiva de fazer a criança se preparar para "ser" no futuro. Segundo Guimarães (2003), "a educação no contexto da modernidade tem como perspectiva formar os adultos de amanhã, os artífices da futura sociedade". (p.3). Será que a educação tem sido pensada só nesta perspectiva, será que não se pensa na infância em si na questão de contemplar as capacidades, as percepções das crianças, os olhares destas para as questões da vida. Este mesmo autor ao analisar a questão da educação infantil nos Referenciais curriculares diz que "a educação infantil é situada na LDB como primeira etapa da educação básica, e tem como finalidade propiciar o pleno desenvolvimento da criança". (p.27) Observo então, que o objetivo não é só formar para vir a ser e sim fazer com que a criança se desenvolva no presente. Se desenvolver não seria ter voz ser considerada alguém ativo, com sua produção e seu modo de pensar? Mas nem sempre foi assim; A educação tradicional muitas vezes impediu isto e fez com que as crianças fossem tidas apenas como reprodutoras e não criadoras. Formavam-se indivíduos que não conseguiam agir por si só porque foram impedidos por uma educação que não considerava seu saber. E isto porque a educação era voltada a mecanizar os saberes das crianças, considerando-as como alguém que não sabe ou que não pode por ser criança. Não quero dizer assim que desta forma a criança seja autônoma não precise das intervenções dos adultos, mas que se ouçam as crianças e as veja como alguém que "é", não como alguém impossibilitado de ser no presente, mas deve propiciar as crianças formas de "ser" e "viver" a infância. Hoje observamos não só na educação infantil, mas nas séries seguintes a questão do considerar o conhecimento que a criança já tem, ou seja, conhecimentos do âmbito social de seu contexto, pois ela como participante da sociedade em que vive aprende e é influenciada por esta em seus conhecimentos e vivências; portanto, tem conhecimento, não é alguém vazio até porque a criança aprende com o mundo dos adultos e ressignifica a realidade, o aprendizado que viveu a "seu modo" para melhor entendê-los. Segundo os RCNs(1998): As crianças possuem uma natureza singular, que as caracterizam como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio, e isto porque, através das interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem as relações contraditórias que presenciam e, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos. (p.21) A criança tem que ter a oportunidade de "ser" no presente para "ser" no futuro. E um dos objetivos que os referenciais curriculares (1998) colocam é da criança desenvolver sua independência, a confiança em suas capacidades (p.63). Isto é considerar a criança como um ser atuante, como alguém que pode e não como alguém que por ser criança não tem voz. Desta forma, analisando as concepções dos referenciais vemos que este apresenta aspectos de valorização à infância na qual a criança é compreendida como alguém atuante, que possui uma cultura, um jeito de ser próprio. Com isto, a prática educativa deve buscar compreender um ensino que alcance esses objetivos, onde valorize esses aspectos da infância que os Referenciais curriculares trazem, mas isso será possível a partir de uma nova perspectiva de reconhecer a criança como produtora e não como somente produto a ser formada. Com isso, tendo em vista essa compreensão, voltei minha pesquisa a observar a prática de uma escola municipal, a qual me trouxe uma verificação, um exemplo, de como esta trabalha a questão da infância e qual o modo que a escola a concebe. Desta forma, verifiquei o modo como é estabelecida as atividades no ambiente escolar e os projetos, de forma a averiguar se pensam na formação da criança somente para o futuro ou se trabalham com ela o presente, ou seja, como um "ser" que "é" no presente. Tal escola situa-se em um bairro periférico de classe social baixa. São moradores oriundos de cidades nordestinas e que vieram para São Paulo tentar melhores condições de vida. A escola é de pequeno porte, composta por quatro salas que atende a três períodos: manhã, intermediário e tarde. Possui 10 professoras, uma coordenadora (diretora), e uma assistente de direção. Possui em seu ambiente um espaço (pátio) não muito grande, mas que atende ao número de crianças, há ainda um parque ao ar livre e brinquedos em condições favoráveis ao uso. Minha pesquisa se voltou a fazer observações práticas na rotina da escola no seu dia-a-dia, sendo que estas foram desenvolvidas durante três meses, tendo como foco observar os trabalhos que são desenvolvidos e, a saber, qual a concepção de infância que esta traz consigo. Vale ressaltar que esta pesquisa informará a concepção de uma instituição não tenho o intuito de generalizar a todas, pois cada uma possui seu olhar para a criança e para a infância. Nesta escola, pude observar na prática, que a mesma tenta por diversas vias trabalhar de modo a valorizar aspectos da infância: como as brincadeiras infantis; trabalhando questões da cultura; da imagem de si, e um outro aspecto é a autonomia da criança, a questão do expressar-se, de saber colocar suas opiniões, o que é interessante pelo fato de trazer à criança oportunidade de escolher o que gosta o que quer e o que acha ser bom; algo que traz importantes momentos onde a criança mostra seu olhar sobre as coisas e sobre o mundo a sua volta de modo a trazer a seu mundo infantil. Outro dado relevante na observação da prática desta escola foi a questão do conselho infantil que me levou refletir e ater o foco da pesquisa sobre esta por ser uma das formas que a escola trouxe de fazer com que a criança tenha seu espaço e que ela "seja", e atue conforme seu pensar, ou seja, a escola pode sim formar a criança na sociedade, mas deve considerá-la como um ser que é e está vivendo no presente. O trabalho desta escola nos mostra formas da criança relacionar-se com os adultos mostrando suas opiniões e ressignificando o que tem a sua volta, e produzindo cultura. Observei importantes momentos de atuação destas crianças, que são as vozes das demais frente à direção escolar e frente aos demais participantes do ambiente educativo. O conselho infantil começou a ser organizado em abril com o processo de eleição, onde as crianças que preenchiam o perfil disposto se candidatavam; perfil este elaborado pelos professores e alunos durante discussões sobre o que seria o perfil ideal para um representante infantil do conselho. E com isto o perfil disposto para a criança se candidatar era: saber falar, não ter vergonha de se expressar, obedecer a professora e a direção, e ter propostas de melhoria das atividades e do ambiente escolar. Os integrantes são escolhidos pelas próprias crianças e cada classe realiza a sua eleição e fazem a escolha de três ou quatro amigos que as representarão no conselho infantil, e também escolhem os suplentes para o caso de ausência destes. A escolha é realizada em cada sala, onde a professora explica e discute com os alunos, a importância da realização das escolhas destes amigos e da própria organização do conselho, e explica que elas deverão escolher conforme as propostas dos candidatos e verificar as mais viáveis e as que condizem com o que eles querem e acreditam. É um trabalho que é direcionado a fazer com que as crianças tenham autonomia nas escolhas dos projetos e nas atividades que serão desenvolvidas em cada mês. A escolha e a votação é algo que faz a criança se sentir contribuinte com trabalho desenvolvido na escola e se sinta autônoma em tomar decisões. Depois desta escolha dos integrantes, os eleitos passam a ser a "voz" de sua sala frente à direção e as demais crianças que foram eleitas das outras salas. Um exemplo do trabalho desenvolvido foi o mês da criança onde estas escolheram que atividades seriam desenvolvidas no decorrer do mês e isso foi feito na reunião do conselho infantil onde as crianças levantaram sugestões, aprendendo a respeitar as opiniões dos amigos e decidindo o melhor a ser desenvolvido e de acordo com que elas acham melhor e "legal". Nas observações que realizei no decorrer deste período pude verificar que as reuniões do conselho infantil são realizadas em mensalmente onde se decide temas específicos, como a festa junina, aniversariantes, festa de natal, etc. Essas reuniões são momentos na qual as crianças decidem as atividades que gostariam que fossem realizadas na escola e também optam por melhorias no ambiente escolar; a direção faz um levantamento das opções para melhorias e envia ao departamento, ou seja, há uma preocupação em valorizar o que as crianças opinam como também a participação destas. Deste modo, para o levantamento destas decisões e também destas opiniões as crianças se reúnem entre si juntamente com a direção que se torna mediadora da reunião e ouvinte das opiniões e escolhas feitas pelas crianças. Esta atividade mostra um espaço em que a criança deixa de ser "EN-FANT" sem voz para ser alguém com voz, que é ouvida e onde sua opinião é valorizada, ou seja, não é vista mais como um ser que não sabe e que por ser criança não pode trazer contribuição ao espaço escolar; é algo que faz a criança "ser", atuar, desenvolver e ressignificar o que a escola propõe e o que os professores a ensina a sua cultura infantil, sendo assim ela produz uma cultura e uma voz própria. Após esta reunião é feita a integração entre os representantes de todas as salas e após um consenso entre as escolhas; estes levam a pauta do que foi levantado para a sala e discutem com as demais crianças e a professora, que acaba mediando a discussão em sala, mas que dá "a voz" para que as crianças conversem entre si e escolham, ou seja, não interfere, só faz a mediação nas escolhas, e através deste momento em sala as crianças optam pelas atividades que acharem melhor, depois que cada sala fica ciente da pauta e dos levantamentos do conselho e fazem suas escolhas, o conselho se reúne novamente e faz o levantamento das respostas e reúne as que ganharam. Isto proporciona que as crianças desenvolvam autonomia de realizar suas escolhas e participam no que se refere às atividades de seu ambiente escolar e faz também, com que nestas interações, nestas trocas de opiniões, a criança construa sua identidade, sua maneira de ser, isto porque segundo Guimarães (2003) "a identidade pressupõe um processo de interação entre individuo e sociedade, capaz de fornecer as condições para que uma nova situação diferencial se estabeleça". (p.30) Ou seja, essa troca, essa socialização de idéias entre as crianças favorece novos aprendizados e novas construções em sua identidade fazendo as ter "voz". Segundo Paula (2005) diz "as crianças são sujeitos atuantes e por isso, criticas e construtoras de seu mundo". (p.1) As crianças por meio do conselho atuam de forma democrática onde acabam aprendendo a se expressar, a ouvir os outros amigos e a respeitar as opiniões, e também a estar por dentro e a serem autoras das atividades e dos projetos que são escolhidos por elas. É algo muito interessante, pois se vê e se reserva um espaço onde a criança deixa de ser EN-FANT "aquele que não fala" para ser atuante e dessa forma exercer uma autonomia de se expressar e de interpretar as atividades no ambiente escolar conforme suas culturas infantis, pois a criança elabora a partir do que vivencia em seu contexto, e acaba recriando a sua vivência de mundo, e interpretando ao seu modo infantil, a sua cultura e a sua forma de ver e perceber o mundo. Favorecer um espaço em que a criança possa discutir, possa optar, possa expressar seu modo de olhar o mundo é algo muito rico e incide outro olhar da escola, e dos envolvidos no ambiente escolar, pois deste modo a escola passa a ver as crianças como "alguém que é", e não que será; mas isto incide também outro modo de pensar em que favoreça mais a participação das crianças, incide um olhar educativo que pensa não só no futuro das crianças, mas que as reconheça no hoje, no presente, vendo-as como alguém que aprende com o presente e está a ser formar a partir deste. O conselho infantil mostra-nos outro olhar a infância e isto é algo que nem todos os envolvidos no âmbito da educação têm, ou seja, nem todos percebem a infância como algo presente, a criança como alguém que tem suas percepções, suas escolhas e sua cultura. Muitas das vezes o que permanece no ambiente escolar é um olhar a infância como algo que tem que ser formado e que nada sabe que não sabe se expressar, e acaba não ouvindo a criança, e vendo esta com o papel de "executora" do que os adultos que tudo sabe dizem; o que acabam trazendo uma infância sem valor e sem a percepção do que a própria criança acredita ser; é uma desvalorização ao olhar da criança, a sua cultura. Algo que influencia a própria aprendizagem escolar, pois a criança sendo percebida e tratada desta forma acaba limitada, o que influencia muito seu convívio em sociedade, pois a criança não consegue "ser" por ter sido tratada como alguém que "não é" e que um dia "será".Segundo Paula (2005); Considerar a infância como uma categoria social ou estrutural, não significa afirmar que as crianças estejam descoladas da sociedade, que tenham total autonomia no processo de socialização ou que suas produções ocorram sem interlocução com o mundo social dos adultos. Mas é necessário compreender que elas atribuem outras significações e sentidos sobre as coisas à sua volta e, sobretudo ao que fazem. As crianças transcendem as regras instituídas pelos adultos e instituem outras de acordo com as relações que estabelecem com seus pares, pois se sabe que os laços de amizades entre as crianças e, consequentemente, as teias de interesses afins encorajam as "invenções", possibilitando a expansão de acordos, de criações, de expressões, enfim, de produções culturais. (p.2) As crianças nesta perspectiva possuem culturas que são construídas a partir das ressignificações que fazem das ações dos adultos tornando assim sujeitos que recriam o seu modo e a sua forma de entender e compreender aspectos do mundo, sujeitos construtores de uma cultura própria. É o que os RCNs (1998) traz em sua concepção: As crianças possuem uma natureza singular, que as caracteriza como seres que sentem e pensam o mundo de um jeito muito próprio. E isto através das interações que estabelecem desde cedo com as pessoas que lhe são próximas e com o meio que as circunda, as crianças revelam seu esforço para compreender o mundo em que vivem as relações contraditórias que presenciam, por meio das brincadeiras, explicitam as condições de vida a que estão submetidas e seus anseios e desejos. (p.21) Ou seja, considera-se assim a criança com uma característica própria em que ela é criadora e produz o que é significativo a seu ver; deixando assim de considerá-la como ser que nada sabe e nada produz ser passivo e reprodutor do que os adultos estabelecem que faça. É algo que passa a trazer uma nova concepção de infância, pois se acredita assim que a escola, a educação será contribuinte que a criança se desenvolva sendo atuante, criativa, que seja um individuo participante de seu processo de aprendizagem e não um indivíduo passivo que só recebe, pois olha-se as criança como sujeitos que nada sabem, incapazes, e na verdade se surpreendem quando a criança traz respostas, traz significados que nós adultos não compreendemos e até questionamos como ela sabe? Mas na verdade a criança aprende com cada experiência que vive no mundo e com os adultos que lhe são referências, mas trazem ao seu modo e adquire um novo olhar. Portanto a escola, a educação deve pensar nesta perspectiva. Muitas vezes nós professores passamos atividades e pensamos, "mas são crianças não saberão lidar com tais propostas", e na verdade elas nos surpreendem, pois demonstram saber mais do que acreditávamos que fariam. A prática desta escola, este projeto com o conselho infantil deixou-me perceptível a confiança, a crença em que as crianças têm a contribuir e isso é algo muito valorativo à educação, mas que implica mudanças no modo de pensar dos envolvidos, como já foi dito, porque se tem com isto uma nova perspectiva do trabalho escolar, ou seja, não só de formar, mas também de acreditar que a criança "é" no presente o que contribuirá a ela a ser no futuro. Desta forma, me leva a pensar em uma prática que vise uma abertura de espaço para a criança atuar, não ser alguém passivo, mas ser um autor de suas experiências e significações. Vejo um diferencial nesta escola pesquisada, pois são poucas que pensam na criança como um ser que pode opinar que pode participar, que pode se expressar e que pode ter seu querer, sua escolha; é raro porque é algo é difícil entender a infância nesta perspectiva, pois mudam alguns conceitos que a escola carrega consigo, porque se acredita que deste modo o adulto acaba perdendo a autoridade, mas não é algo que tende a tirar autoridade até porque mesmo a criança tem que ter uma referência, mas nada disso influi sobre esta questão e sim acaba gerando uma aproximação maior entre a criança e o adulto fazendo os ver com percepções diferentes. A partir do momento em que a escola passa a proporcionar um trabalho assim onde a criança tem seu espaço, participa das atividades escolares fazendo escolhas, ela passa a proporcionar que esta se torne criadora de uma cultura própria. Nesta perspectiva, a escola passa a ressignificar seu trabalho, e isto ao estabelecer que este tenha a opinião delas, e a visão de mundo que elas têm em sua "interpretação infantil". É um trabalho que facilita também a integração entre os adultos e as crianças, possibilitando aos adultos conhecerem e contextualizar-se ao universo infantil, como forma destes saberem lidar com as crianças no âmbito escolar. A educação infantil não é pensada muitas das vezes desta forma, pois o que se vê é a criança sem nenhum conhecimento, sendo considerada "vazia", sem formas de "ser", ou seja, um ser incapaz que deve a educação ser e fazer tudo por elas. Durante a pesquisa de observação conversei com algumas crianças de seis anos que integram o conselho infantil, e nesta conversa me disseram gostar de fazer parte do mesmo, mas disseram se sentir por vezes com "vergonha" por ter que dar opinião e falar; isso me fez refletir que sendo assim motivados a se expressarem, a opinar, aos poucos eles acabam se manifestando de forma natural, sem mais se sentirem "temorizados" em expressar suas opiniões. Certa vez acompanhando a fala de algumas crianças integrantes do conselho frente à sala, em um momento de socialização da pauta da reunião do conselho infantil, uma das integrantes chamou-me a atenção em sua forma de expressar, muito "esperta" repetia como que de 'postura adulta" as sugestões, opiniões dadas em reunião e explicava como deviam ser feitas as escolhas das opções. Foi um momento marcante, pois nos trouxe a reflexão de como a criança traz para si as formas e as ações do mundo adulto e de como esta referência é importante para elas, pois elas acabam produzindo uma cultura própria a partir dessas aprendizagens. Este é um trabalho que, como diz Jobim e Souza (1994) et al. Andrade (2007), "faz-se uma ruptura com a representação desqualificadora de que a criança é alguém incompleto, alguém que constitui em um vir a ser no futuro". Pois segundo estes autores ressaltam "a criança não se constitui no amanhã; ela é hoje, no seu presente, um ser que participa da construção da história e da cultura de seu tempo". (p.4). Desta forma, como se pode pensar na criança em um ser que será só no futuro, desconsiderando sua atuação no presente fazendo assim viver e a ser um sujeito sem "voz", alguém como uma "tábula rasa", vazio, sem nada a contribuir agora, só futuramente quando adulto; a educação como descrevi já teve e ainda tem visões como estas. A criança tem sim a contribuir nos fazer entender seu universo e a nos mostrar qual a melhor forma que ela poderia e pode aprender o que ela pensa etc., e a melhor forma de contribuirmos é abrindo um espaço em que ela possa ser estar e atuar, ou seja, um espaço em que possa ser criança, em que possa ter uma infância com "voz". Contudo, acredito que o modo como a sociedade vê a infância influência sobre a forma da escola ver a mesma, mas pensar em como ter um olhar diferenciado, em não só pensar na criança no amanhã, mas sim na sua formação no presente é algo que a educação tem que estar refletindo, a escola tem que pensar em formas de alcançar estes aspectos no que diz ao desenvolvimento das crianças. No entanto, esta questão nos traz várias reflexões contínuas sobre o modo como a infância tem sido concebida no espaço escolar, mas acreditamos que esta pesquisa é só uma introdução, uma reflexão, uma "provocação" a nós educadores a pensarmos na infância na atualidade de forma diferente, acreditando nas crianças como sujeitos capazes, atuantes, com "voz". Desta forma, fica em aberta a questão para novas curiosidades que darão continuidade e abrirão janelas para e contínuas reflexões.

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